Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Canino (Kynodontas) - 2009




[Este post pode conter spoilers]

Decidi iniciar esta minha caminhada pela comunidade bloguista com este filme, um dos mais interessantes que assisti no ano transacto. Pelas mãos de Yorgos Lanthimos, Canino surgiu sorrateiramente e apresentou-me ao cinema grego que até então desconhecia.

Como descrever a rotina desta família sem entrar no campo da comédia? Tarefa difícil. O filme inicia-se de forma estranha e percebemos que não estamos perante algo banal, mas sim perante algo que quebra um pouco os moldes, o que por si só já é uma lufada de ar fresco. Os três irmãos (um rapaz e duas raparigas) a ouvirem uma cassete onde se fazem soar algumas palavras que ouvem pela primeira vez, algo que parece fazer parte da rotina dos jovens. Mas rapidamente percebemos que tais palavras, que para nós são diárias e banais, para eles são novidade e inclusive adquirem um significado diferente. E assim avançamos numa obra pouco usual.

Durante todo o filme há uma clara analogia entre os humanos (mais concretamente os três irmãos) e os cães. Seja pela conversa entre o pai da família e o treinador de cães, seja pelas lambidelas ou até mesmo pelo ladrar dos membros da família para afastar os gatos, que naquela casa se impõem como os animais mais perigosos do mundo, capazes de devorar a carne dos humanos, em especial a das crianças.

A educação aqui representada a cabo pelos pais é um bom exemplo de como a mesma nos caracteriza tanto, mesmo que não o queiramos. Aqui os jovens são moldados consoante a vontade dos pais de os limitarem a um certo espaço, onde acreditam estes estarem seguros. O vocabulário fornecido pelos pais é limitado, o que se nota na expressividade dos diálogos entre os filhos. Até chegam ao ponto de arranjarem uma rapariga para o filho poder satisfazer os desejos sexuais que começam a aflorar. Quando esta rapariga já não serve, fica a cabo da irmã mais velha satisfazer o irmão. Todas estas atitudes para os privarem de quaisquer influências exteriores que possam existir.

Mas por mais privativa e controlada que a nossa rotina diária seja, temos sempre um escape, algo em que apenas nós temos controlo, a nossa mente. Podemos construir mundos nossos, sonhar ir mais longe, etc. Mas até que ponto? Praticamente tudo o que formulamos na nossa mente tem uma base sólida, comummente real, á volta do qual construímos algo. Se no nosso dia-a-dia não nos é fornecida informação, sobre o que vamos sonhar? Sobre o que vamos ansiar realizar? Tudo o que eles podiam desejar era que caísse um avião dentro das imediações da vedação. A mente não ia muito mais longe, não passava dos portões. Eles não sabiam o que havia do outro lado, apenas que não era seguro e não lhes era reconhecível.

Quando o estímulo exterior consegue penetrar os portões, a mente da irmã mais velha é assolada com muita informação nova, levando-a a entrar em conflito e a desejar desesperadamente sair dali para ver o mundo, do qual apenas teve um pequeno vislumbre.

A realização de Yorgos Lanthimos é bastante competente e promissora. Para além de apostar bastante em planos fixos, o realizador não se preocupa em procurar estabelecer enquadramentos perfeitos, não se importando em "cortar" a cabeça aos seus actores, etc. Destaque especial para o elenco, fotografia e montagem. Quanto ao argumento, em parceria com Efthimis Filippou, é dos mais ricos de que tenho conhecimento.

Nota: 8/10